LIDE Suíça · Análise semanal · LIDE Switzerland Daily Clipping
Foi uma semana decisiva para as relações Brasil–Suíça. O Brasil finalizou o segundo turno da eleição presidencial, os mercados reagiram com força e os dois centros financeiros seguiram avançando nos temas que vão definir a próxima década: capital, regulação, ativos digitais e inteligência artificial.
E esta semana começa com uma novidade concreta:
desde domingo, o acordo EFTA–Mercosul já vale no comércio entre o Brasil e a Noruega.
A seguir, o que importa para líderes empresariais dos dois países.
1. EFTA–Mercosul: o acordo começa a valer, mas a Suíça ainda não entrou
O MDIC confirmou que o acordo vale para o comércio Brasil–Noruega desde domingo, 1º de novembro. A Noruega zerou tarifas de itens como vestuário, leveduras e óleos vegetais refinados, enquanto o Brasil reduz as suas de forma gradual, em até 15 anos. Com a Islândia, as preferências já valem desde 1º de outubro.
Suíça e Liechtenstein seguem pendentes. Na sexta-feira, 30 de outubro, o Grande Conselho de Genebra aprovou, por 53 votos a 29, o apoio a um referendo cantonal contra o acordo. Para que o referendo aconteça por essa via, são necessários oito cantões; em paralelo, ONGs e partidos de esquerda fazem uma coleta nacional de assinaturas.
Por que importa: exportadores brasileiros já acessam mercados da EFTA pela Noruega e pela Islândia. O acesso ao mercado suíço, porém, depende agora de um debate político que ganha força. É exatamente esse debate que levaremos ao palco em Zurique, no dia 22 de janeiro.
2. Brasil após o segundo turno: primeiro a volatilidade, depois o teste fiscal
O presidente Lula venceu o segundo turno com cerca de 51,8% dos votos, e o TSE confirmou o resultado. Na segunda-feira, 26, a reação foi forte: o Ibovespa caiu cerca de 13,9% e o real perdeu cerca de 8,2%, o que acionou o primeiro circuit breaker da B3 desde 2020. O Tesouro respondeu com recompras de títulos e o cancelamento de leilões.
No meio da semana, o quadro se estabilizou. A Moody’s manteve sua avaliação sobre o Brasil, embora tenha ressaltado que a dívida exige reformas. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, sinalizou continuidade: o BC só intervirá no câmbio se o mercado ficar disfuncional, e ele cumprirá seu mandato até 2028.
Ainda assim, o saldo da semana foi duro. O dólar fechou a sexta-feira, 30, a R$ 5,446, alta semanal de cerca de 9,15%, a maior desde 2008. O Ibovespa encerrou a 167.921,80 pontos, com queda semanal de 18,12%, a pior desde março de 2020.
A Agência Brasil aponta como fatores a incerteza fiscal com a equipe econômica ainda indefinida, a saída de cerca de R$ 7,6 bilhões de investidores estrangeiros da bolsa em três pregões, a busca por proteção antes do feriado de Finados e a liquidação global de ações de tecnologia.
Os próximos testes já estão no calendário. O Copom decide a Selic nesta quarta-feira, 4 de novembro, na primeira reunião após o segundo turno, com o mercado dividido entre a manutenção em 13,75% e um corte. E o governo prometeu para o fim do ano o projeto com a nova meta fiscal.
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Por que importa: para investidores e empresas suíças, a questão não é o resultado da eleição em si, mas a credibilidade da política fiscal. Os próximos passos de Brasília vão definir o custo de capital de cada projeto do corredor, e o ajuste da última semana já mudou o custo de hedge e o valor em reais das carteiras custodiadas na Suíça.
3. O capital de longo prazo continua de olho no Brasil
Apesar da volatilidade, os investidores de longo prazo seguem engajados. A Advent fechou um fundo de buyout de cerca de US$ 30 bilhões e diz planejar mais investimentos no Brasil após a eleição. O Itaú acertou a compra da startup de IA NeoSpace por cerca de R$ 2,9 bilhões. O Morgan Stanley não espera IPOs brasileiros em 2026, mas projeta um ano recorde em M&A internacional.
Três operações da semana reforçam esse quadro:
Raízen. Em 30 de outubro, a companhia concluiu a reestruturação de cerca de R$ 65 bilhões em passivos. Aproximadamente R$ 30 bilhões viram ações, os credores ficam com cerca de 80% do capital, e a Shell, com 13% a 15%, torna-se a maior acionista individual. Os acionistas aprovaram a divisão do grupo em duas companhias listadas.
CSN Cimentos. A CSN deu exclusividade de dez dias à chinesa Huaxin para concluir a venda da unidade por um enterprise value de R$ 12,7 bilhões, peça central do seu plano de desalavancagem.
Transmissão de energia. No leilão da Aneel de 30 de outubro, de R$ 8,9 bilhões, Neoenergia, Cymi, Celeo, Cox e EDP levaram os oito lotes, com deságio médio de 50,1% e concessões de 30 anos.
Na Suíça, a Associação Suíça de Banqueiros apontou a América Latina como mercado de crescimento para o private banking, e os números confirmam a força da praça. O lucro líquido do UBS no 3º trimestre subiu 8%, para US$ 2,69 bilhões.
A Vontobel atingiu o recorde de CHF 255,1 bilhões em ativos sob gestão, e o SMI superou pela primeira vez os 14.800 pontos. Segundo a AMAS, o mercado suíço de fundos chegou ao recorde de CHF 1,93 trilhão. A atividade também segue firme: o PMI industrial subiu para 56,7 em outubro, o oitavo mês seguido acima de 50.
Por que importa: os mercados públicos podem fazer uma pausa, mas é no capital privado, no M&A, na infraestrutura e na gestão de patrimônio que os negócios entre Brasil e Suíça estão acontecendo.
4. Reforma tributária: datas para a agenda
A CBS, o novo IVA federal, substitui o PIS/Cofins a partir de 1º de janeiro de 2027. O TCU calculou uma alíquota de referência de cerca de 11,35%, que valerá se o Senado não deliberar dentro do prazo. O senador Eduardo Braga será o relator na Comissão de Assuntos Econômicos, que começa os debates em 11 de novembro. Empresas suíças com operação no Brasil devem revisar desde já preços, contratos e sistemas.
Na Suíça, o IVA também está em pauta: em 29 de novembro, os eleitores votam o aumento do imposto para financiar a 13ª parcela da aposentadoria pública (AHV).
5. Ativos digitais: dois reguladores, uma direção
Terminou em 30 de outubro o prazo para que as prestadoras de serviços de ativos virtuais já em operação pedissem autorização ao Banco Central. O Itaú foi o primeiro banco a notificar o BC sobre intermediação e custódia de criptoativos, e Banco Inter, Binance, Ripple e Mercado Bitcoin estão entre as empresas que fizeram o pedido. O BC ainda não divulgou um número oficial, e os levantamentos não oficiais divergem.
Quem ficou de fora começa a sair: Uphold, Oobit e a área cripto do Revolut anunciaram o encerramento das atividades no Brasil.
Duas datas merecem atenção. Em 3 de novembro começa o reporte ao BC de operações com cripto e stablecoins no mercado de câmbio (Resolução BCB 574). Em 6 de novembro, bancos e instituições de pagamento deixam de poder operar com prestadoras não autorizadas (Resolução BCB 589), e ainda há dúvidas sobre o tratamento das que estão em análise.
A Binance, maior corretora a atender investidores brasileiros, reabriu os saques em fases no domingo, após um ataque de cerca de US$ 6,3 bilhões. A empresa diz ter reposto com recursos próprios cerca de 95% dos ativos roubados, e a Binance Brasil afirma que os saques em reais nunca foram interrompidos.
Na Suíça, a Crypto Finance e o Google Cloud testaram depósitos tokenizados em francos suíços com dois bancos, e a Associação Suíça de Banqueiros defende que os bancos possam emitir stablecoins em francos com as licenças que já têm. Desde 1º de novembro valem também as novas regras da FINMA para identificação online: e-ID federal, documentos com QR code e prova de vida obrigatória contra fraudes com IA.
Por que importa: os dois países estão trazendo os ativos digitais para dentro do sistema bancário regulado. Governança e compliance, áreas em que a Suíça é referência, tornam-se vantagem competitiva.
6. IA e infraestrutura de dados: soberania dos dois lados
O presidente Lula prometeu uma “IA brasileira” e data centers movidos a energia renovável, com capacidade reservada para dados brasileiros. A PwC estima que o investimento em data centers no Brasil pode praticamente dobrar, para cerca de US$ 60 bilhões por ano até 2050.
O desafio está dentro das empresas: segundo o estudo “Raio X da IA no Brasil”, com 150 CIOs, 45% das empresas não atendem a nenhum dos sete critérios de maturidade em IA, e só 6% atendem ao de custo e retorno.
Na Suíça, a Green comprou a antiga área da ABB em Birr para construir, em etapas, um campus de data centers. E o centro nacional de supercomputação (CSCS), que treina modelos de IA suíços, contratou energia da EWZ, de Zurique, a CHF 76,6 por MWh para 2029–2033, uma referência pública do custo de energia da computação de IA no país.
Do lado brasileiro, o Pix Automático mais que dobrou no segundo trimestre, mais um sinal da velocidade com que o país adota novas infraestruturas de pagamento.
Por que importa: a engenharia, a eficiência energética e a expertise suíça em proteção de dados encontram um dos mercados digitais que mais crescem no mundo, e um mercado em que governança e disciplina de retorno são hoje o principal gargalo.
7. O corredor em ação
A Picterra, empresa de GeoAI de Lausanne, assinou um memorando de entendimento com o INPA, o instituto de pesquisa da Amazônia, para monitorar sistemas agroflorestais por satélite.
A suíça ANYbotics começou a entregar robôs de inspeção à prova de explosão, e a Petrobras está entre os primeiros clientes. E a Embrapa Agricultura Digital, que desenvolveu um sistema com drones e IA para indicar o melhor momento de abate de bovinos, busca uma agtech parceira para transformá-lo em produto, uma porta aberta para empresas suíças de tecnologia de precisão.
Nos dias 10 e 11 de novembro, São Paulo recebe o Infrastructure Forum Brazil Switzerland, organizado pelo Swiss Business Hub Brazil (S-GE). As inscrições terminam nesta terça-feira, 3 de novembro.
Agenda dos próximos dias
3/11 (terça): Boletim Focus, adiado pelo feriado de Finados. Início do reporte de operações cripto no câmbio (Res. BCB 574). Resultado do Itaú no 3º trimestre.
4/11 (quarta): decisão do Copom sobre a Selic.
5/11 (quinta): Martin Schlegel, presidente do Banco Nacional Suíço, fala em Zurique sobre a transmissão da política monetária.
6/11 (sexta): entra em vigor o corte da Res. BCB 589. Conselho da Raízen delibera o aumento de capital.
10 e 11/11: Infrastructure Forum Brazil Switzerland, em São Paulo.
11/11: a CAE do Senado começa o debate da alíquota da CBS.
29/11: votações federais na Suíça, incluindo o aumento do IVA.
Nossa leitura
A semana trouxe volatilidade, mas os fundamentos do corredor não mudaram. O capital procura oportunidades bem governadas, a regulação converge e a inovação circula nos dois sentidos. Com o EFTA–Mercosul já em vigor para parte da EFTA, a pergunta para a Suíça deixou de ser “se” o acordo traz oportunidades e passou a ser “quando” as empresas suíças poderão aproveitá-las.
A LIDE Suíça existe para reunir os líderes que transformam essas tendências em negócios.
Conectar. Fazer negócios. Influenciar.
📅 Save the Date: Brasil Economic Forum – Acordo EFTA–Mercosul
22 de janeiro de 2027 · 9h00 às 15h30 · Zurique (local a confirmar)
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Fontes: LIDE Switzerland Daily Clipping, de 26 de outubro a 2 de novembro de 2026, com base em MDIC, Agência Brasil, Agência Senado, InfoMoney, Brazil Journal, NeoFeed, Seu Dinheiro, CoinDesk, Reuters, FINMA, finews, cash.ch, Inside IT, Teletime, Agência FAPESP, Startupticker.ch, Moneycab e outros.




