O corredor de negócios começa a sair do papel, enquanto o Brasil ia às urnas
Para quem atua entre os dois países, a semana trouxe sinais mais duradouros do que os números da corrida presidencial. O Acordo Mercosul–EFTA ganhou regras práticas de cotas e uma data concreta de entrada em vigor com a Noruega, enquanto a Suíça ainda não concluiu seus trâmites.
O Banco Central do Brasil sentou-se com o Banco Central Europeu para discutir a conexão do Pix a um sistema de pagamentos instantâneos internacional, e a imprensa registra conversas também com a Suíça. E, dos dois lados, reguladores e mercados redesenharam o terreno de quem cuida de patrimônio: dos fundos de pensão brasileiros que querem mais exposição ao exterior ao primeiro ETF suíço de bitcoin para o varejo.
Neste post, reunimos o que importa para o nosso corredor e por quê. A base é o clipping diário do LIDE News, e cada informação traz o link para a fonte original.
1. Mercosul–EFTA: a Noruega sai na frente, a Suíça ainda não tem data
O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a EFTA, assinado no Rio de Janeiro em setembro de 2025 e promulgado pelo Brasil em setembro de 2026, está entrando em vigor por etapas. Vale entre Brasil e Islândia desde 1º de outubro. Com a Noruega, começa em 1º de novembro. Para preparar essa data, a Secex, do MDIC, publicou as regras das cotas de exportação com tarifa reduzida para o mercado norueguês. Elas cobrem carne bovina, aves, mel, batata, maçã, trigo duro, milho, melaço, suco de maçã, farelo de soja e cavalos vivos (O Mundo Diplomático; ClicRDC).
A mecânica é simples e merece atenção dos exportadores. Em 2026, as cotas são atribuídas por ordem de pedido, sem divisão prévia entre os países do Mercosul. O pedido entra pelo módulo LPCO do Portal Único Siscomex, e o exportador tem 60 dias para vincular a licença à Declaração Única de Exportação. Volumes não usados no prazo voltam ao saldo comum. Do lado das importações, a Portaria Secex nº 544 já regula, desde o início de outubro, as cotas para vinhos, queijos, chocolates e fórmulas infantis vindos da EFTA. São justamente categorias em que a Suíça é forte.
E é aí que mora o ponto central para o nosso corredor: Suíça e Liechtenstein ainda não concluíram suas etapas nacionais. Na Suíça, um referendo contra o acordo foi lançado em 13 de outubro e precisa reunir 50 mil assinaturas até 21 de janeiro de 2027 (Rettet den Regenwald). Se as assinaturas forem atingidas, a decisão final passa ao voto popular. Na prática, empresas suíças e brasileiras devem planejar com a hipótese de vigência bilateral não antes de 2027.
Leitura LIDE. O acordo passa a existir na prática, mas com a Suíça ainda de fora. Quem exporta para o mercado suíço ou importa da Suíça deve tratar a Noruega e a Islândia como laboratório: testar a burocracia de cotas e de origem agora, para estar pronto quando Berna concluir o processo. O debate suíço sobre agricultura e meio ambiente será decisivo, e o setor privado dos dois países tem um papel em explicar, com dados, o que o acordo significa para empregos e investimentos.
2. Pix rumo à Europa e, quem sabe, à Suíça
Em 21 de outubro, o diretor do Banco Central do Brasil Gilneu Vivan teve reuniões de trabalho no Banco Central Europeu, em Frankfurt. O tema foi a possível conexão do Pix ao TIPS (TARGET Instant Payment Settlement), o sistema de pagamentos instantâneos do Eurosistema. A conversa faz parte de um estudo conjunto de viabilidade que os dois bancos centrais anunciaram em 24 de setembro e que cobre aspectos técnicos, operacionais, jurídicos e de modelo de negócio (Mix Vale; Repórter Maceió).
A imprensa fala em meta de piloto até o fim de 2027, mas o BCB ressalta que o estudo não significa o início da operação integrada e que não há data de lançamento. O detalhe que interessa diretamente ao nosso corredor veio do Metrópoles: o BCB também mantém conversas com os sistemas de pagamento instantâneo da Suíça e da Índia e participa da iniciativa multilateral Nexus.
Leitura LIDE. Hoje, uma transferência entre Brasil e Suíça ainda passa por correspondentes bancários, com custo, câmbio e prazo pouco transparentes. Uma ponte entre o Pix e um sistema instantâneo europeu, e mais adiante suíço, reduziria esse atrito para empresas, family offices, estudantes e turistas. Ainda é cedo, mas vale acompanhar quem será o interlocutor do lado suíço e como bancos e fintechs dos dois países se posicionarão.
3. Patrimônio em movimento: dos fundos de pensão brasileiros à Paradeplatz
O dado mais revelador da semana veio de São Paulo. O Raio-X de Investimentos das EFPC 2026, da Abrapp com a Itajubá, apresentado no 47º Congresso Brasileiro de Previdência Privada, cobre R$ 461 bilhões em ativos. Mostra que a renda fixa passou de 56% para 86% das carteiras dos fundos de pensão em 13 anos, enquanto a exposição ao exterior é de apenas 1,9%. Ainda assim, metade das entidades pretende aumentar a alocação internacional nos próximos 12 meses (NeoFeed; Abrapp).
Do lado suíço, o assunto foi a liderança do maior gestor de fortunas do mundo. O Inside Paradeplatz relatou que o UBS teria sondado Christian Sewing, CEO do Deutsche Bank, para suceder Sergio Ermotti. É um relato não confirmado, baseado em comentários entre investidores, e nenhum dos bancos comentou. Ele surge enquanto o UBS disputa com Berna as novas regras de capital.
O modelo suíço de gestão independente também segue ativa. A Two Wealth, de Zurique, nomeou Stefan Wüthrich como sócio e quer contratar mais 15 consultores até o fim do ano (finews.com; finews.ch). Em Genebra, o ex-Berenberg Franck Sabbah lançou a Solid 3, que distribui gestoras boutique no mercado suíço com remuneração por êxito (finews.com; finews.ch).
No Brasil, a CVM endureceu com o canal de assessores. O Colegiado rejeitou propostas de Termo de Compromisso de cinco assessores de investimento e um investidor num caso de possíveis operações fraudulentas e enviou os fatos ao Ministério Público Federal (CVM). Em paralelo, abriu processo contra o liquidante da Master Corretora por atrasos em assembleias de três FIIs. O maior deles, o Macam Shopping, tem 20 entidades de previdência entre os cotistas (NeoFeed). E a gestão de patrimônio brasileira atrai nomes de peso: Rodrigo Xavier, ex-CEO do UBS Pactual e cofundador da Vinci Partners, entrou no conselho consultivo da Decade, plataforma que combina IA e assessores humanos (Bloomberg Línea).
Leitura LIDE. Há uma demanda estrutural de diversificação internacional no Brasil, tanto de famílias quanto de institucionais. A Suíça tem a oferta, mas o setor está em reorganização, entre a sucessão no UBS, as regras de capital e a expansão dos gestores independentes. Para os dois lados, governança e conduta são hoje o diferencial. O caso Master e a postura mais rígida da CVM lembram que due diligence não é burocracia, é proteção de patrimônio.
4. Política, câmbio e tributos: o pano de fundo
A corrida presidencial chega ao fim em empate técnico. A pesquisa Quaest de 21 de outubro mostra Flávio Bolsonaro (PL) com 45% e Lula (PT) com 44%, dentro da margem de erro de dois pontos (InfoMoney; Exame). No primeiro turno, segundo o TSE, Flávio teve 47,03% e Lula, 45,16%. O mercado reagiu ao estreitamento: o Ibovespa caiu 0,86% em 21 de outubro, a 206.495 pontos, e o dólar subiu a R$ 5,0279 (Diário do Grande ABC; Revista Oeste).
A quatro dias do segundo turno, o presidente sancionou a lei Prospera MEI. Ela perdoa dívidas tributárias e previdenciárias federais de mais de 3,6 milhões de microempreendedores, com condições, e eleva o teto de faturamento do MEI. As estimativas de custo divergem entre R$ 12,6 bilhões e R$ 15,5 bilhões (Poder360; CNN Brasil).
Longe das manchetes, a reforma tributária avança. A Portaria MF nº 3.089/2026 indicou os representantes da Receita Federal no Comitê de Harmonização das Administrações Tributárias, previsto na Lei Complementar nº 214/2025. O colegiado terá metade dos membros da Receita e metade do Comitê Gestor do IBS e vai uniformizar a interpretação das regras comuns do IBS e da CBS, com resoluções vinculantes para todos os entes (Contábeis).
Na Suíça, o tema é a Europa. A comissão de política externa do Conselho Nacional (APK-N) aprovou, por 15 a 9, iniciar a análise do pacote de acordos com a UE e aprovou cerca de CHF 3,5 bilhões em créditos de coesão até 2036. Livre circulação e o tipo de maioria exigido no referendo ficaram para 5 e 6 de novembro (Nau.ch).
Leitura LIDE. O LIDE não toma partido na eleição. O que importa aos nossos membros é previsibilidade: o resultado de 25 de outubro definirá o rumo fiscal de 2027 e a primeira decisão do Copom após a eleição, em 4 de novembro. Para quem tem operação nos dois países, o câmbio e a regulamentação do IBS e da CBS pesam mais do que qualquer pesquisa. Na Suíça, a relação com a UE é o pano de fundo de toda a política comercial, inclusive do acordo com o Mercosul.
5. Ativos digitais, dados e IA: dois reguladores, a mesma direção
Na mesma semana, os dois países avançaram na regulação de cripto. Na Suíça, a FINMA aprovou em 20 de outubro o primeiro fundo para o varejo que detém bitcoin diretamente. A emissora é a unidade de Zurique do BIT Group, a custódia fica com o AMINA Bank, e a estreia na SIX está prevista para meados de novembro, ainda sem data final (finews.com; tippinpoint; The Block).
No Brasil, a contagem regressiva é outra. As empresas de cripto que já operam no país têm até 30 de outubro para pedir autorização como SPSAV ao Banco Central, sob as Resoluções BCB 519 e 520. Segundo advogados ouvidos pela Exame, quem não protocolar terá de encerrar as atividades. Bybit, OKX e Crown, emissora da stablecoin BRLV, já entraram com pedido (Exame; BitNotícias; AVNews).
Em dados, a Suíça reforça a soberania digital. A NorthC começou a construir um data center de 4,5 MW em Meyrin, Genebra, com entrega em fases até 2028 (DatacenterDynamics). E a licitação da Swiss Government Cloud, de até CHF 7 bilhões em 14 anos, mantém um lote com dados exclusivamente na Suíça e abriu espaço para consórcios suíços (SRF; admin.ch).
Na inteligência artificial, um tribunal suíço traçou uma linha clara. O Bundesverwaltungsgericht decidiu que a PostFinance precisa de consentimento expresso para usar impressões de voz biométricas de clientes, nos termos da lei de proteção de dados (DSG), e que um aviso de opt-out não basta (Inside IT). Na nossa vizinhança, o Departamento de Estado dos EUA anunciou um projeto da Crusoe com a paraguaia Araico para uma instalação de IA abastecida pela energia de Itaipu, com primeira unidade prevista para meados de 2027 (CNN Brasil; Gazeta do Povo).
Leitura LIDE. A Suíça regula ativos digitais com produtos aprovados e custódia bancária, e o Brasil passa a exigir licença de quem já opera. Os dois caminhos convergem para um mercado mais institucional. Para os nossos membros, isso abre espaço a parcerias entre a experiência suíça de custódia e tokenização e a escala do varejo brasileiro. Em dados e IA, a lição suíça é que confiança e consentimento são vantagem competitiva, e Itaipu lembra que energia limpa e barata é o novo ativo estratégico da região, num momento em que o Anexo C do tratado está em renegociação.
A visão do Lide Suíça
O corredor Brasil–Suíça raramente faz manchete por si só, mas esta semana mostra como ele se constrói: por regras de cotas, por conversas entre bancos centrais, por fluxos de patrimônio e por padrões regulatórios que começam a convergir. Três pontos merecem a atenção de quem lidera negócios entre os dois países.
O acordo Mercosul–EFTA já é realidade, mas sem a Suíça. O processo suíço, inclusive um possível referendo, vai definir o calendário. Vale preparar a operação agora.
A infraestrutura financeira está se aproximando. Pix internacional, custódia de ativos digitais e regras de licença criam espaço para parcerias entre instituições dos dois países.
Governança é o ativo mais valioso do corredor. A demanda brasileira por diversificação internacional encontra na Suíça um parceiro natural, desde que a confiança seja preservada dos dois lados.
O LIDE Suíça seguirá acompanhando esses temas e promovendo o diálogo entre líderes empresariais do Brasil e da Suíça. Conectar, fazer negócios, influenciar.
Na agenda
Este texto tem caráter informativo, é baseado em fontes públicas e não constitui recomendação de investimento nem aconselhamento jurídico ou tributário. Relatos não confirmados estão identificados como tal.



